Reflexão crítica sobre o DSM: contribuições e limitações.


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          Hoje, em sua quinta versão, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM) categoriza diversas patologias mentais – em número, nomes e códigos- sendo usado por uma equipe multidisciplinar (como médicos psiquiatras e psicólogos). Falaremos nesta publicação, dos aspectos que consideramos limitações e contribuições, tendo como solo as edições de I a IV do DSM, no que tange a sexualidade.
           Quando se trata da sexualidade no campo da saúde, há muitas controvérsias. No qual a própria sexualidade é delineada a partir de normas socialmente estabelecidas que gera padrões de comportamento sexual, diferenciados em “normais” e “atípicos”. Ao utilizar o DSM como luz ao olhar o comportamento sexual, deve-se ter em mente que ele é um manual usado por médicos e pesquisadores para diagnosticar, classificar e auxiliar na intervenção dos transtornos mentais.
          Por isso, devemos chamar atenção para suas mudanças e reformulações ao longo do tempo, de acordo com a cultura e variações sociais. Ao falar nessas transformações podemos trazer como exemplo a Homossexualidade, que foi tratada de forma diferente ao longo das edições do DSM, no qual foi variando de acordo com as demandas trazidas socialmente e ao mesmo tempo delineando novas formas socioculturais de tratar e olhar a homossexualidade.
          Adrião e Cavalcanti (2013) nos chama a atenção para o uso do DSM, evidenciando o seu poder como:
“...ferramenta compartilhada de enquadramento das subjetividades. Nela, ao partir da formulação de um campo discursivo, tem-se a possibilidade de compartilhamento por toda a classe psiquiátrica de métodos diagnósticos específicos”. [2]
          Ganha-se força ao utilizar a biopolítica e adquiri a atenção dos saberes médicos; temas como moral e normas de comportamentos saem das restrições filosóficas e sociais, caminhando para o campo da saúde. Contribuir assim, para que o campo médico construa novas formas de conceber o sujeito, estabelecendo verdades no que diz respeito à forma de ser do indivíduo.
         E ao tratar a psicopatologia, não se fala apenas como o indivíduo deve se portar, mas sim, quais as formas de comportamentos “doentes” que através do diagnósticos, devem ser tratadas. No caso da sexualidade, o comportamento “desviante” é trazido em cena e a partir disso o sujeito é definido e nomeado – gerando uma identidade, tendo como parâmetro o seu comportamento sexual.
           Russo (SD) tece críticas ao DSM III ao tratar a sexualidade dizendo:
“... o DSM III é um manual extremamente ascético e neutro, inteiramente concebido a partir de uma visão biomédica dos transtornos mentais, deixando de fora não apenas o “psicologismo” psicanalítico como também qualquer forma de compreensão cultural ou social do adoecimento psíquico”. [3]
        Em meio a muitas limitações já explicitadas, podemos trazer algumas contribuições do DSM ao tratar esta temática. Alguns comportamentos “incomuns”, como o de uma pessoa com fobia social, por muito tempo foi negligenciada e tratada como outros tipos de transtornos, no qual dava ao indivíduo que possuía este comportamento, recebia o estigma e o diagnóstico de algo que não era compatível com sua realidade. Por exemplo, pessoas com ataques de pânico, confundidas com esquizofrênicos. Com a formulação e a criação destes novos diagnósticos trazidos pelo DSM, não ocorre mudança apenas no prognóstico dos transtornos, mas também a forma de como abordar clínica/terapeuticamente aquele sujeito. O uso do diagnóstico trazidos pelos manuais não só dão parâmetros para a forma de tratamento que o profissional da saúde terá que abordar, mas também dá ao indivíduo informações necessárias para sua própria orientação para melhoria da sua qualidade de vida. [4] O erro não está no uso ou não do DSM, mas será negativo se ele for considerado a única fonte de conhecimento que baseie o diagnóstico, sem ser levado em consideração todos os outros aspectos vivenciados pelo sujeito.
         Em relação ao termo “parafilia” o DSM tem seus “erros” e “acertos”. Vemos como uma desvantagem a categorização deste transtorno, englobando comportamentos como o do voyeurismo e da pedofilia em um mesmo grupo, não levando em consideração suas especificidades. Defender então, uma padronização rígida do que diz respeito ao comportamento sexual de cada um, utilizando este aspecto para definir e tratar o próprio sujeito. Negligenciando por várias edições, aspectos socioculturais relacionados com a patologia e com a própria vivências do sujeito.
       Porém no DSM-IV vimos uma preocupação com os aspectos psicossociais do indivíduo, trazendo critérios para seu diagnóstico que abarcassem não só o sofrimento psíquico do indivíduo, como também o seu funcionamento social; além de levar em conta a frequência e intensidade do próprio comportamento. Ao trazer as características especificas da parafilia, o DSM IV aborda questões culturais e religiosas, que nos faz entender que a parafilia só poderá ser considerada comportamento “desviante” dentro de um contexto sociocultural que ratifique isto, sem a universalidade do comportamento.
       Não podemos esquecer, que as limitações e contribuições do Manual não são generalizadas à todo manual. A cada edição, o DSM propõe-se evoluir, ampliando seu conhecimento e buscando sanar dificuldades encontradas ao longo do caminho. Lembramos também que o DSM tem a oportunidade de unir, através de uma única linguagem, psicólogos, médicos e psiquiatras; além de contribuir para prática clínica, através da sua consulta. Advertindo mais uma vez que o uso deste manual é limitado. Nosso papel aqui não é desvalorizar o manual ou a própria categorização que ele o faz; mas sim, trazer reflexões que nos possibilite pensar nas mudanças que ocorreram como forma de não decretarmos verdades absolutas sobre um tipo de diagnostico ou comportamento. Principalmente ao se falar de sexualidade, pois é nosso dever, pensar no que este processo pode contribuir negativamente ou positivamente para a vida do indivíduo.

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Referências:

[1] Russo, J. & Venâncio, A. T. A. (2006) “Classificando as pessoas e suas perturbações: a “revolução terminológica” do DSM III”. Revista latino americana de psicopatologia fundamental, ano IX, n. 3, set/2006.
[2]  Cavalcanti, M. S. & Adrião, K. G.(2013) “Regulações da ordem do gênero/sexo/desejo. (hétero)normas psiquiátricas”. Prática de Pesquisa. Universidade Federal de Pernambuco.
[3] Russo, J. A. (SD) “A Sexualidade no DSM III”. Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos. Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[4] de Matos, E. G., de Matos, T. M. G, & de Matos, G. M. (2005). “A importância e as limitações do uso do DSM-IV na prática clínica”. Rev Psiquiatr RS set/dez 2005;27(3):312-318.
[5] DSM IV
[6] Imagem retirada do blog "The Causes of Autism". Disponível em <http://bdkmsw.umwblogs.org/what-is-autism/autism-in-the-dsm/>