A História da Classificação




 O termo parafilia vem do grego para = “fora de” e philia = “amor”[4], e foi introduzido no DSM-III em substituição ao termo  “perversão sexual” ou “desvio sexual”. Os primeiros trabalhos científicos produzidos sobre a patologização da sexualidade começaram por volta do ano 1846, mas foi em 1889 que a sexualidade ligada a transtornos mentais –perversões - foi mais difundida, com a publicação do livro Psycopathia Sexualis, de Krafft-Ebing, um psiquiatra alemão[2].
            A primeira versão do DSM foi publicada em 1952, como uma alternativa ao CID (classificação Internacional das Doenças). Nela é possível encontrar uma classificação chamada “desvio sexual”, que fazia parte de um grupo chamado “Distúrbio da Personalidade Sociopática”, que por sua vez, era a uma subdivisão do grupo “Desordens da Personalidade” [2].
            A descrição de “desvio sexual” era:
Este diagnóstico é reservado para a sexualidade desviante que não é sintomática de síndromes mais extensas, como a esquizofrenia e as reações obsessivas. O termo inclui a maior parte dos casos anteriormente classificados como "personalidade psicopática com a sexualidade patológica". O diagnóstico irá especificar o tipo de comportamento patológico, como a homossexualidade, o travestismo, pedofilia, fetichismo e sadismo sexual (incluindo o estupro, agressão sexual, mutilação).” (p. 3, traduzido) [2]
            Em 1968 foi lançado o DSM-II, onde a classificação “desvio sexual” é colocada como subdivisão do grupo “Transtornos de personalidade e Certos Outros transtornos mentais não-psicóticos”, juntamente com “Desordens da Personalidade”, “Alcoolismo” e “Dependência de Drogas”. Dessa vez, sua descrição é um pouco mais detalhada: [2]
Esta categoria é para as pessoas cujos interesses sexuais são direcionados principalmente para com outros objetos, em vez de pessoas do sexo oposto, em direção a atos sexuais geralmente não associados com o coito, ou para o coito realizado sob circunstâncias bizarras como necrofilia, pedofilia, sadismo sexual e fetichismo. Mesmo que muitos achem suas práticas de mau gosto, eles permanecem incapazes de substituir o comportamento sexual normal para eles. Este diagnóstico não é apropriado para os indivíduos que realizam atos sexuais desviantes porque objetos sexuais normais não estão disponíveis para eles.” (p.3, traduzido) [2]
            É importante perceber na primeira sentença dessa descrição o reforço de uma sexualidade “normal” baseada no relacionamento heterossexual.
            O DSM-III foi publicado em 1980 e trouxe, no lugar de “desvio sexual”, a categoria chamada “Transtornos Psicossexuais”, subdividida em “Desordem da Identidade de Gênero”, “Parafilias”, “Disfunções Sexuais”, e “Outras Desordens Psicossexuais”. Segundo Russo (2005, p.7) [2], “logo fica claro que as chamadas “Paraphilias” recobrem a antiga categoria “Desvios Sexuais” do DSM II”. Para Russo e Venâncio (2006) [3], a principal mudança no DSM-III foi a retirada da “Homossexualidade” da categoria “Parafilia”, transformando-a em “Homossexualidade Ego-distônica” na categoria “Outros Transtornos Psicossexuais”.
            Quatorze anos após a publicação do DSM-III foi publicada sua quarta versão, o DSM-IV, com uma revisão no ano 2000, chamada DSM-IV-TR, sem alterações na seção “Parafilias”. Sua descrição nessa versão é:
As Parafilias são caracterizadas por anseios, fantasias ou comportamentos sexuais recorrentes e intensos que envolvem objetos, atividades ou situações incomuns e causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.” [1]
            Vale ressaltar que para o diagnóstico de parafilia, é necessário atender a dois critérios: A – “comportamentos recorrentes, intensos e sexualmente excitantes (...) durante um período mínimo de 6 meses” e B – “O comportamento, os anseios sexuais ou as fantasias causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”.
            No ano de 2013 foi publicada a quinta versão do DSM, o DSM-V, que ainda não está disponível em português, mas que trás algumas mudanças importantes, com, por exemplo, o entendimento que não é qualquer comportamento incomum que será considerado um transtorno, para mais informações leia: Paraphilic Disorders.
            Até aqui abordamos as mudanças histórias da definição do que estamos chamando de “parafilia(s)” a partir de uma visão científica, medicalizada, com base em um manual de “Transtornos Mentais”, ressaltando que se faz necessária sua crítica.

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Referências

[1] DSM-IV
[2] Russo, J. (2005). A Sexualidade no DSM III. salud, sexualidad y diversidad em América Latina.
[3] Russo, J., & Venâncio, A. T. A. (2006). Classificando as pessoas e suas perturbações: a'revolução terminológica'do DSM III. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 9(3), 460-483.

Um comentário:

Guto Silva disse...

Três coisas me chamam a atenção nesse texto: Primeiro está na frase: "O termo parafilia vem do grego para = “fora de” e philia = “amor”[4], e foi introduzido no DSM-III em substituição ao termo “perversão sexual” ou “desvio sexual”. A ideia médica de transformar nomenclaturas a fim de contribuir para a naturalização e normatização de grandes padrões antes não aceitos socialmente (Assim como a mudança histórica de "doença" para "transtorno") em sua completude.
A segunda é com referência à citação "...O comportamento, os anseios sexuais ou as fantasias causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”. Essa questão pode ser resolvida pela chave da lógica do trabalho foucaultiana. "Diferenças" sociais pode não ser grandes problemas, desde que não afete aquilo que para Marx era a mola social: o trabalho. Sendo assim, a partir do momento q a parafilia torna-se um problema na produção em seu contexto de trabalho, a parafilia passa a ser um problema social a se resolver.
A terceira é uma crítica: "Até aqui abordamos as mudanças histórias da definição do que estamos chamando de “parafilia(s)” a partir de uma visão científica, medicalizada, com base em um manual de “Transtornos Mentais”, ressaltando que se faz necessária sua crítica." Realmente, senti a falta do link da parafilia aos processos sociais (mesmo sabendo a diacronia q o texto apresenta) . A um perigo em aderir a ideologia hegemônica em nossa contemporaneidade de trazer muitos problemas sociais à chave da saúde. Quero lembrar-lhes q embora o DSM apresente avanços com relação ao CID -Trazendo um olhar mais social-, ele ainda traz, mesmo assim, uma ideia medicalizada e, por algumas vezes, biológica sobre determinados conceitos. Basta q v6 deem uma olhada (para q esse argumento n fique vago) no conceito de qualidade de vida (Minayo, 2000).